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O Custo do Lítio: Araçuaí enfrenta déficit de R$ 122 milhões e crise sanitária, enquanto agricultura sustenta a economia real

  • Foto do escritor: Katia Torres
    Katia Torres
  • 6 de jan.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 9 de jan.

Marcha pelo Respeito ao Vale do Jequitinhonha em 19/12/2025 em Araçuaí - Foto: Joyce Silva
Marcha pelo Respeito ao Vale do Jequitinhonha em 19/12/2025 em Araçuaí - Foto: Joyce Silva

A promessa de que a extração de lítio transformaria a realidade socioeconômica de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, choca-se com os indicadores fiscais, sanitários e sociais consolidados de 2024 e 2025.


Uma investigação do Diverso Jornal, baseada em dados do Portal da Transparência, DATASUS, IBGE e Agência Nacional de Mineração (ANM) expõe um cenário de desequilíbrio nas contas públicas, agravamento da saúde da população e um conflito cultural sobre a vocação produtiva da região.


Premissa de receita que não se concretizou

A gestão municipal de Araçuaí operou, nos últimos dois anos, sob uma premissa de receita que não se concretizou. A Lei Orçamentária Anual (LOA) incorporou os cenários de expansão econômica projetados pelo setor mineral, mas os dados da ANM mostram outra realidade.


Em 2024, a Prefeitura estimou uma arrecadação total de R$ 270 milhões. A execução real, no entanto, estagnou em R$ 147,2 milhões, resultando em uma frustração de receita de R$ 122,8 milhões.


O descompasso deve-se, primariamente, à volatilidade da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM). O setor de lítio em Minas Gerais encolheu 59% em valor de operação: caiu de R$ 2,7 bilhões (2023) para R$ 1,1 bilhão (2024).


Para 2025, o cenário exige cautela: nos dados parciais da ANM, o município de Araçuaí não figura na lista de arrecadação de CFEM, enquanto cidades vizinhas como Nazareno e Itinga mantêm seus recebimentos.


Para 2025, o cenário exige cautela: nos dados parciais da ANM, o município de Araçuaí não figura na lista de arrecadação de CFEM, enquanto cidades vizinhas como Nazareno e Itinga mantêm seus recebimentos.


 A disparidade entre a promessa e a entrega já é admitida pela gestão. Em reportagem da Agência Pública (Dez/2025), o prefeito Tadeu Barbosa reconhece que a região vive "um paradoxo de coisas boas e ruins". Segundo ele: "A Sigma entra, traz diversificação e melhoria, só que não é como salvadora da pátria. (...) Criou-se a expectativa de uma prosperidade absoluta, mas isso não se concretizou ainda', afirmou o prefeito à reportagem, confirmando que a 'redenção' econômica vendida pelo mercado financeiro não condiz com a realidade imediata do município."


Saúde pública em Araçuaí

A correlação entre a atividade minerária e o aumento de doenças respiratórias foi verificada através de uma análise comparativa. A reportagem utilizou Rio Pardo de Minas como "cidade controle" — município vizinho com características climáticas e geográficas idênticas, mas sem mineração a céu aberto.


Os dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/DATASUS) apontam divergência estatística após o início da operação intensiva em Araçuaí/Itinga:

  • Zona de Mineração: As internações por doenças respiratórias saltaram de 353 (média histórica) para 681 em 2024 — aumento de 93%.

  • Cidade Controle (Rio Pardo): No mesmo período, os registros mantiveram-se estáveis ou apresentaram queda (redução de 19% em 2023).


O dado corrobora o inquérito do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que identificou violação dos limites de material particulado em suspensão na área de influência da mina.


Recurso público X dinheiro circulante

Para compreender o impacto econômico no território, é necessário distinguir o recurso público (imposto) da riqueza econômica (dinheiro circulante). Enquanto a mineração gera CFEM para o caixa da Prefeitura, a agricultura irriga diretamente a economia local.


Dados do IBGE (PAM 2024) indicam que a bananicultura em Araçuaí gerou R$ 28,7 milhões em valor de produção. Diferente do imposto, esse capital entra diretamente no bolso do produtor, paga salários semanais e movimenta o comércio local.


Entenda a diferença: Dinheiro do Governo vs. Dinheiro da Economia (2024)

Produção Agrícola Municipal (PAM 2024); Agência Nacional de Mineração (ANM)
Produção Agrícola Municipal (PAM 2024); Agência Nacional de Mineração (ANM)

A eficiência do uso do solo reforça a disparidade: ocupando apenas 17,34% da área plantada, a banana responde por quase 80% do valor bruto da produção agrícola municipal.


Narrativa do Atraso X potência regional

O debate econômico ganhou contornos culturais após declarações de Ana Cabral, CEO da Sigma Lithium. Em apresentações para investidores, a executiva referiu-se ao passado recente da região utilizando termos como "mulas de água" e "geração perdida", sugerindo que o trabalho na agricultura ("o Bananal") seria uma condenação e sinônimo de subdesenvolvimento.


A fala gerou reação imediata de quem constrói a economia local. Sirley Ramalho, gerente administrativa da Fazenda Rochedo, que atua há 12 anos na região, rebateu a estigmatização apresentando a realidade operacional do setor:


"Somos comprometidos com nossos funcionários em todos os seus direitos. Respeitamos todas as licenças e procedimentos legais", afirma a gestora. A fazenda onde atua produz cerca de 500 toneladas mensais de bananas prata e nanica, abastecendo mercados exigentes como o Rio de Janeiro."

Além da geração de emprego, Ramalho destaca o impacto social direto, citando a doação mensal de 15 toneladas de alimentos pela empresa FBL. "A banana gera renda para nossa região, movimenta o comércio e coloca alimento na mesa de milhares de pessoas. Isso é compromisso social real e concreto. Enquanto alguns falam, nós aqui fazemos", conclui.


Os dados do IBGE (PAM 2024) corroboram a fala da gerente e desmentem o estigma de improdutividade, revelando um mosaico vibrante:

  • O Ouro Vermelho (Urucum): O Vale consolidou-se como potência na produção de Urucum, gerando R$ 7,3 milhões em riqueza.

  • O Doce do Semiárido (Abacaxi): A cidade de Berilo desponta com uma produção que gerou R$ 1,1 milhão.

  • A Força da Banana: Além de Araçuaí, o município de Jequitinhonha gerou R$ 9,6 milhões com a cultura.


Judicialização

O descompasso entre o discurso de sustentabilidade ("Lítio Verde") e a realidade local resultou em uma Ação Civil Pública (ACP) movida pelo MPMG contra a mineradora. A ação solicita o bloqueio de R$ 50 milhões para garantir indenizações por danos morais e sociais coletivos.


O inquérito civil identificou impactos estruturais, como rachaduras em 50% das casas vistoriadas nas comunidades vizinhas, e descreve uma situação de "aprisionamento" social, onde famílias dependem de autorização da empresa para transitar em áreas historicamente comunitárias. O MP classifica parte da publicidade da empresa como greenwashing, apontando omissão sobre os passivos ambientais reais da operação.




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